quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Fluteford



            Emily Hawthorne jamais imaginou que se veria obrigada a mudar-se para um lugar tão longínquo e isolado como o vilarejo de Fluteford, situado em algum lugar ao leste do Reino Unido. Ela não fazia ideia da localização exata, e o fato de Fluteford não estar presente no mapa não ajudava.
            Em menos de uma semana sua vida mudara drasticamente. Perdera seus pais num naufrágio, e agora estava indo morar com uma tia que jamais tivera contato. Não tinha escolha, era uma donzela de apenas dezessete anos, em pleno século XVIII, que não poderia viver só, nem em um orfanato. Não enquanto tinha a tia, Frida Hawthorne, para cuidar dela.
            Quando o trem parou na Estação de Fluteford cuspindo fumaça e apitando, tia Frida já estava lá, aguardando por ela. Era uma estação ligeiramente pequena, com apenas uma plataforma, e poucos eram os desafortunados que tinham que desembarcar ali. Portanto, mesmo sem se conhecerem, tia Frida logo reconheceu a sobrinha loura e de pele marfim, olhos profundos e claros, expressão triste e apática e um corpo oculto em um vestido farto em camadas de tecidos e bordados.
            Não trocaram palavras no caminho de charrete até a casa de tia Frida desde que se cumprimentaram na estação. Fluteford era tão miseravelmente pequena que o percurso apresentou metade do vilarejo para Emily.
          Era um vilarejo tradicional: Grande praça ao centro com chafariz e bancos, cercada pelo comércio local, igreja gótica e magistral e uma pequena, porém organizada escola. Para além da praça, haviam casas simples até os limites do vilarejo. Tia Frida, no entanto, residia num velho casarão de dois andares, à beira de um rio, o rio Fluteford que cercava vilarejo e demarcava seus limites. Havia uma única ponte sobre o rio, e esta ficava a uma curta distância do casarão de Tia Frida. A outra extremidade da ponte dava acesso a uma trilha que só subia.
      Subia para uma montanha de pedras, não muito alta é verdade, mas o suficiente para ofegar durante a subida. Ao topo, via-se um velho e abandonado castelo escuro. Tinha aspecto medieval, e ao menos três torres eram visíveis. Não chegava a ser imenso, mas certamente comportava três famílias confortavelmente.
            Tia Frida acomodou Emily em um grande e aconchegante quarto no andar superior e ela foi muito educada ao agradecer. Tratou de desfazer as malas e descansar. Acabou cochilando, e a noite começava a se manifestar quando ela despertou. Espreguiçou-se e caminhou até à sacada. Dali tinha uma vista privilegiada do castelo, à luz precária da lua, escuro e imerso em névoa e sombras.
            Ou pelo menos estava imerso em sombras. Emily teve um sobressalto ao ver, na mais alta torre, uma luz amarelada se acender. Não obstante, viu uma silhueta masculina emergir. Era magra e o vento revelou cabelos compridos em movimento. Ao notar estar sendo observado por Emily, recuou. A luz se apagou deixando Emily envolta em interrogações.
            Uma vez à mesa de jantar, Emily e tia Frida permaneciam taciturnas e o único som no ambiente era o das colheres raspando o fundo do prato de sopa de cebola. Foram várias as menções que Emily fez de iniciar um diálogo com a tia, mas sempre perdia a coragem no ultimo instante. Observadora como era, ao notar a hesitação da sobrinha, tia Frida falou:
Se não perguntar, não poderei responder.
Ao ouvir a tia quebrar o silêncio repentinamente, Emily teve um leve sobressalto. Tomou mais uma colherada de sopa, e se sentindo mais encorajada disse:
— É que eu... queria saber mais sobre... o castelo do outro lado...
— Por quê? — perguntou tia Frida olhando-a penetrante.
— Nada de mais, eu... só fiquei curiosa. Acho que vi uma luz acesa lá, acho que tinha alguém...
— Impossível. — sentenciou a tia — Ninguém vive naquele castelo há pelo menos um século.
Tia Frida era uma mulher de jeito sério e duro. Tinha expressões frias e ar arrogante. Emily não gostou dela ao vê-la, sentiu falta dos pais sempre dóceis e amáveis. Agora via nela uma expressão de assombro que a reduzia a uma menina assustada. Todavia, essa expressão desapareceu tão rápido quanto surgiu. A tia prosseguiu:
— Existe uma lenda, a qual originou o nome do vilarejo, que diz que o ultimo residente dali era um músico que perdeu sua amada de forma trágica. Segundo a lenda ele nunca superou, e todas as noites entoava uma canção, que havia composto para ela em vida, numa flauta. O vento era muito competente em trazer a música para o vilarejo e era ouvida por todos, logo a tristeza reinava. Todos sofriam sua dor.
“Então um dia o flautista morreu. Acho que é aí que a história vira essa lenda tola, pois se narra que mesmo após a morte dele, ouvia-se a canção. Mas eram somente as moças que ouviam durante a madrugada, e estas atravessavam a ponte, subiam a montanha e adentravam o castelo. Nunca mais eram vistas.”
Um vento invadiu a sala pela janela aberta e causou um arrepio em Emily que suspeitava fortemente que estaria arrepiada mesmo sem vento algum, após ouvir aquela história.
            De volta ao quarto, frustrada por não ver nada no castelo, Emily estava deitada e tentando decidir se acreditava ou não no que seus olhos viram mais cedo. Acabou adormecendo. Mas seu sono não foi longo.
A madrugada chegou e Emily se viu despertada por uma música profundamente melancólica. Levantou-se e foi à sacada, a luz da torre estava acesa. Via a silhueta de perfil agora e ela tocava a flauta.
Quando deu por si, Emily já estava à porta do castelo. Havia atravessado a ponte e subido a montanha de pés descalços e camisola. Não sentia-se cansada e nem se lembrava de ter chegado ali. Seus cabelos loiros e ondulados caiam por sobre o ombro. A porta se abriu com um rangido revelando um interior escuro e descuidado. Teias de aranha, poeira, e insetos mortos decoravam o ambiente. A iluminação escassa e alaranjada provinha de um candeeiro no ápice da escada central por onde Emily subiu.
Logo estava na iluminada sala da mais alta torre do castelo. O lustre sugava a escuridão e permitia que Emily visse a face do flautista. Ela gostou do que viu: olhos escuros como os cabelos compridos e repartidos ao meio. Face pálida destacando os lábios finos e vermelhos, nariz fino e pontudo. Olhava com profundidade e amor para ela. Por alguma razão ela sentia o mesmo por ele: Amor. Nunca o vira, ou pelo menos não se lembrava, mas sabia que o amava compulsivamente.
— Melanie... — disse ele — finalmente voltaste para mim! Depois de tanto tempo, depois de tantas tentativas, finalmente te encontrei!
— Sinto muito, mas... não sou Melanie, sou...
            — Sim, você é! Você é a minha Melanie que voltou para mim e agora poderemos ficar juntos pela eternidade! Minha alma reconhece a tua, estou certo que você é minha Melanie!
            — Pela eternidade? — perguntou ela confusa.
            — Ah, sim meu amor! Finalmente nossas almas gêmeas se encontraram!  
       — Mas eu não sou uma... alma. Mas você... você sim é, você está morto! — afirmou assustada — Não está? — acrescentou em dúvida.
            O flautista se aproximou e segurou as mãos dela. Olhou em seus olhos e a beijou.
       
            Os moradores do vilarejo nunca entenderam como o corpo de Emily foi parar no rio Fluteford, onde ele boiava na manhã seguinte. No entanto, Frida Hawtorne tinha uma vaga ideia.   
           
  
  
     

           


O Voo



Sentada na poltrona 419, fitando outros aviões através da janela, Lisa se questionava o porquê daquele número uma vez que o avião era ligeiramente pequeno.
Na verdade havia muitas coisas estranhas naquele avião, como a estrutura das poltronas, por exemplo, que ao invés de serem organizadas em trios eram organizadas em duplas. A pequena TV da poltrona da frente não ligava para que ela pudesse usufruir dos programas de entretenimento e música. O tamanho do avião era estranho também, pois exteriormente era do tamanho de um Boeing, mas o interior se assemelhava a um pequeno avião particular.
Assim que alguma comissária de bordo se apresentasse, ela procuraria suas respostas.
− Lisa?
Ela virou o pescoço para ver o corredor;
− Henry! Que bom vê-lo! – saudou ela ao ver seu ex-colega de trabalho.
Ela saíra de seu antigo emprego há dois meses e ele ainda trabalhava lá. Tinham uma relação formidável no trabalho até Lisa não considerar que não podia mais continuar por lá.
− Como você está? − Perguntou ele sentando-se ao seu lado.
− Estou ótima! Você vai viajar aí?
− Sim! Minha poltrona é a 420.
            Antes que Lisa pudesse comentar a estranheza com relação aos números das poltronas, o avião deu a partida. Ele correu pela pista e levantou voo. O nariz erguido pra cima, pronto para rasgar os céus.
− Henry...
− O que foi?
− Estou com medo.
Henry segurou sua mão. Por uma fração de segundo, Lisa sentiu seu coração bater como nos tempos em que trabalhavam juntos, mas reprimiu os sentimentos novamente ao ver na mão dele a aliança dourada. Nunca conhecera a mulher dele, nem mesmo sabia seu nome, mas Lisa sabia que ele era casado.
− Tem medo de voar?
− Não, não é isso. É que nenhuma comissária passou por nós pra conferir os cintos e tudo o mais, não vieram às orientações formais sobre segurança, o piloto não falou conosco... Tem alguma coisa errada.
− Sinceramente, acho um saco aquela vozinha robótica dando essas instruções. Nem me faz falta.
− Mesmo assim Henry...
− Lisa, relaxa! Daqui a pouco nós chegamos, o importante é que estamos bem e...
− FOGO!!!!
          Henry se calou, Lisa se pôs de pé, mas caiu sentada com uma guinada que o avião deu.
O berro viera do meio do corredor no polo oposto. Um passageiro dizia ver fogo na asa do avião e o pânico se espalhava por quem constatava tal informação.
Henry estava pálido e em choque, Lisa chorava mas não gritava, somente pedia a Deus que não a deixasse morrer.
O avião começou a perder altitude.
− Todo mundo calado! – berrou alguém que estava em pé no corredor do avião.
Lisa se aprumou em sua poltrona e viu que o homem tinha uma arma em sua mão.
− Se vocês ficarem em pânico não vai adiantar nada! Berrou o homem que segurava a arma. 
Henry estava chorando agora. Em desespero.
Lisa se perguntava como aquele homem entrara no avião armado, a segurança nos aeroportos era extrema e ele certamente passara pelo detector de metais antes de entrar no avião.
Mas Lisa não se lembrava de ter passado pelo detector de metais. Na verdade ela nem se lembrava de ter feito o check-in e nem de pra onde estava indo. Não lembrava-se nem mesmo de onde estava vindo.
− Henry... Henry olha pra mim!
− Eu não quero morrer Lisa! Eu não quero morrer! Minha mulher... ela está grávida, Lisa! A Christine vai ter um bebê! Eu não quero morrer! – as lágrimas lavavam seu rosto.
O nariz do avião inclinou-se para baixo... era uma questão de instantes para colidir com o solo.
− Henry, por favor! Me responda: Para onde este avião estava indo?
− Para Londres, Lisa! Eu não posso morrer!
− Henry! Por favor, olha pra mim! Isso não é real! Estamos sonhando! Quando esse avião colidir com o chão, vamos acordar em nossas camas, entendeu?
Henry fitava Lisa atônito. Que loucura era aquela?
Lisa não via outra explicação. Aquilo tudo não fazia sentido. Não podia ser real. Nada naquele avião fazia sentido algum.
− Que loucura é essa Lisa?
− Me diga: Você se lembra de ter feito o check-in? De ter passado do aeroporto pra cá?
− Sim! Eu me lembro! A atendente do balcão inclusive era de aparência oriental... eu passei por uma livraria também antes de embarcar...
De repente a teoria que Lisa havia concluído perdera o sentido. O avião mergulhou com tudo rumo ao chão e o desespero de Lisa aumentou. Iria morrer, as pessoas naquele voo não estavam sonhando. Mas... e se somente ela estivesse?
        Então houve fogo. O rosto de Henry desesperado foi a ultima visão de Lisa antes de eles serem consumidos pelas chamas.
           
             Lisa acordou.
          O relógio digital da mesa de cabeceira da sua cama indicava que eram 4:19 da manhã. Estava muito suada e a respiração era ofegante. Agradeceu a Deus por ser apenas um sonho. Por estar em terra firme, por estar sã e salva em Nova Jersey.
Pegou seu celular, tinha o número de Henry e discou. Estava tão impressionada que não se importou com o horário.
− Alô? – atendeu uma mulher.
− Christine...? – arriscou Lisa.
− Sim, e você, quem é?
− Sou Lisa, seu marido e eu trabalhávamos juntos, ele está?
         − Não, ele acabou de sair para uma reunião em Londres, disse que pegaria uma carona no jatinho do seu chefe....
               Lisa verificou as horas novamente. 4:20.