Emily Hawthorne jamais imaginou que se veria obrigada a
mudar-se para um lugar tão longínquo e isolado como o vilarejo de Fluteford,
situado em algum lugar ao leste do Reino Unido. Ela não fazia ideia da localização
exata, e o fato de Fluteford não estar presente no mapa não ajudava.
Em
menos de uma semana sua vida mudara drasticamente. Perdera seus pais num
naufrágio, e agora estava indo morar com uma tia que jamais tivera contato. Não
tinha escolha, era uma donzela de apenas dezessete anos, em pleno século XVIII,
que não poderia viver só, nem em um orfanato. Não enquanto tinha a tia, Frida Hawthorne,
para cuidar dela.
Quando
o trem parou na Estação de Fluteford cuspindo fumaça e apitando, tia Frida já
estava lá, aguardando por ela. Era uma estação ligeiramente pequena, com apenas
uma plataforma, e poucos eram os desafortunados que tinham que desembarcar ali.
Portanto, mesmo sem se conhecerem, tia Frida logo reconheceu a sobrinha loura e
de pele marfim, olhos profundos e claros, expressão triste e apática e um corpo
oculto em um vestido farto em camadas de tecidos e bordados.
Não
trocaram palavras no caminho de charrete até a casa de tia Frida desde que se
cumprimentaram na estação. Fluteford era tão miseravelmente pequena que o
percurso apresentou metade do vilarejo para Emily.
Era
um vilarejo tradicional: Grande praça ao centro com chafariz e bancos, cercada
pelo comércio local, igreja gótica e magistral e uma pequena, porém organizada
escola. Para além da praça, haviam casas simples até os limites do vilarejo. Tia
Frida, no entanto, residia num velho casarão de dois andares, à beira de um
rio, o rio Fluteford que cercava vilarejo e demarcava seus limites. Havia uma
única ponte sobre o rio, e esta ficava a uma curta distância do casarão de Tia
Frida. A outra extremidade da ponte dava acesso a uma trilha que só subia.
Subia
para uma montanha de pedras, não muito alta é verdade, mas o suficiente para ofegar
durante a subida. Ao topo, via-se um velho e abandonado castelo escuro. Tinha
aspecto medieval, e ao menos três torres eram visíveis. Não chegava a ser
imenso, mas certamente comportava três famílias confortavelmente.
Tia Frida acomodou Emily em um grande
e aconchegante quarto no andar superior e ela foi muito educada ao agradecer.
Tratou de desfazer as malas e descansar. Acabou cochilando, e a noite começava
a se manifestar quando ela despertou. Espreguiçou-se e caminhou até à sacada. Dali
tinha uma vista privilegiada do castelo, à luz precária da lua, escuro e imerso
em névoa e sombras.
Ou
pelo menos estava imerso em sombras. Emily teve um sobressalto ao ver, na mais
alta torre, uma luz amarelada se acender. Não obstante, viu uma silhueta
masculina emergir. Era magra e o vento revelou cabelos compridos em movimento.
Ao notar estar sendo observado por Emily, recuou. A luz se apagou deixando
Emily envolta em interrogações.
Uma
vez à mesa de jantar, Emily e tia Frida permaneciam taciturnas e o único som no
ambiente era o das colheres raspando o fundo do prato de sopa de cebola. Foram
várias as menções que Emily fez de iniciar um diálogo com a tia, mas sempre
perdia a coragem no ultimo instante. Observadora como era, ao notar a hesitação
da sobrinha, tia Frida falou:
— Se não perguntar, não poderei responder.
Ao ouvir a tia quebrar
o silêncio repentinamente, Emily teve um leve sobressalto. Tomou mais uma
colherada de sopa, e se sentindo mais encorajada disse:
— É que eu... queria saber mais sobre...
o castelo do outro lado...
— Por quê? — perguntou tia Frida
olhando-a penetrante.
— Nada de mais, eu... só fiquei curiosa.
Acho que vi uma luz acesa lá, acho que tinha alguém...
— Impossível. — sentenciou a tia — Ninguém
vive naquele castelo há pelo menos um século.
Tia Frida era uma mulher de jeito sério
e duro. Tinha expressões frias e ar arrogante. Emily não gostou dela ao vê-la,
sentiu falta dos pais sempre dóceis e amáveis. Agora via nela uma expressão de
assombro que a reduzia a uma menina assustada. Todavia, essa expressão
desapareceu tão rápido quanto surgiu. A tia prosseguiu:
— Existe uma lenda, a qual originou o
nome do vilarejo, que diz que o ultimo residente dali era um músico que perdeu
sua amada de forma trágica. Segundo a lenda ele nunca superou, e todas as
noites entoava uma canção, que havia composto para ela em vida, numa flauta. O
vento era muito competente em trazer a música para o vilarejo e era ouvida por
todos, logo a tristeza reinava. Todos sofriam sua dor.
“Então um dia o flautista morreu. Acho
que é aí que a história vira essa lenda tola, pois se narra que mesmo após a
morte dele, ouvia-se a canção. Mas eram somente as moças que ouviam durante a
madrugada, e estas atravessavam a ponte, subiam a montanha e adentravam o
castelo. Nunca mais eram vistas.”
Um vento invadiu a sala pela janela
aberta e causou um arrepio em Emily que suspeitava fortemente que estaria arrepiada
mesmo sem vento algum, após ouvir aquela história.
De volta ao quarto,
frustrada por não ver nada no castelo, Emily estava deitada e tentando decidir se
acreditava ou não no que seus olhos viram mais cedo. Acabou adormecendo. Mas
seu sono não foi longo.
A madrugada chegou e Emily se viu
despertada por uma música profundamente melancólica. Levantou-se e foi à
sacada, a luz da torre estava acesa. Via a silhueta de perfil agora e ela
tocava a flauta.
Quando deu por si, Emily já estava à
porta do castelo. Havia atravessado a ponte e subido a montanha de pés
descalços e camisola. Não sentia-se cansada e nem se lembrava de ter chegado
ali. Seus cabelos loiros e ondulados caiam por sobre o ombro. A porta se abriu
com um rangido revelando um interior escuro e descuidado. Teias de aranha,
poeira, e insetos mortos decoravam o ambiente. A iluminação escassa e
alaranjada provinha de um candeeiro no ápice da escada central por onde Emily
subiu.
Logo estava na iluminada sala da mais
alta torre do castelo. O lustre sugava a escuridão e permitia que Emily visse a
face do flautista. Ela gostou do que viu: olhos escuros como os cabelos
compridos e repartidos ao meio. Face pálida destacando os lábios finos e
vermelhos, nariz fino e pontudo. Olhava com profundidade e amor para ela. Por
alguma razão ela sentia o mesmo por ele: Amor. Nunca o vira, ou pelo menos não
se lembrava, mas sabia que o amava compulsivamente.
— Melanie... — disse ele — finalmente
voltaste para mim! Depois de tanto tempo, depois de tantas tentativas,
finalmente te encontrei!
— Sinto muito, mas... não sou Melanie,
sou...
— Sim, você é!
Você é a minha Melanie que voltou para mim e agora poderemos ficar juntos pela
eternidade! Minha alma reconhece a tua, estou certo que você é minha Melanie!
— Pela
eternidade? — perguntou ela confusa.
— Ah, sim meu amor!
Finalmente nossas almas gêmeas se encontraram!
— Mas eu não sou uma...
alma. Mas você... você sim é, você está morto! — afirmou assustada — Não está? —
acrescentou em dúvida.
O flautista se
aproximou e segurou as mãos dela. Olhou em seus olhos e a beijou.
Os moradores do
vilarejo nunca entenderam como o corpo de Emily foi parar no rio Fluteford,
onde ele boiava na manhã seguinte. No entanto, Frida Hawtorne tinha uma vaga
ideia.
Muito bom!! Deu vontade de ler mais... Pena que ela morreu, né?
ResponderExcluiradorei o texto!
ResponderExcluirTexto Ótimo
ResponderExcluirmuito bom a historia eu gostei
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